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No ocaso de sua vida, obedecendo a um desejo do Papa Leão XIII, Dom Bosco assumiu a difícil tarefa de construir o templo do Sagrado Coração de Jesus no Castro Pretório, em Roma. Para completar o gigantesco empreendimento, ele não poupou viagens cansativas, humilhações e sacrifícios, que encurtaram sua preciosa vida como apóstolo da juventude.


A devoção ao Sagrado Coração de Jesus remonta aos primórdios da Igreja. Nos primeiros séculos, os Santos Padres convidavam as pessoas a olhar para o lado transpassado de Cristo, um símbolo de amor, mesmo que não se referisse explicitamente ao Coração do Redentor.
As primeiras referências encontradas são dos místicos Matilde de Magdeburg (1207-1282), Santa Matilde de Hackeborn (1241-1299), Santa Gertrudes de Helfta (ca. 1256-1302) e Beato Henrique Suso (1295-1366).
Um desenvolvimento importante veio com as obras de São João Eudes (1601-1680), depois com as revelações particulares da Visitandina Santa Margarida Maria Alacoque, divulgadas por São Cláudio de la Colombière (1641-1682) e seus irmãos jesuítas.
No final do século XIX, as igrejas consagradas ao Sagrado Coração de Jesus se espalharam, principalmente como templos expiatórios.
Com a consagração da humanidade ao Sagrado Coração de Jesus, por meio da encíclica de Leão XIII, Annum Sacrum (1899), o culto foi muito ampliado e fortalecido com mais duas encíclicas posteriores: Miserentissimus Redemptor (1928), de Pio XI, e especialmente Haurietis Aquas (1956), de Pio XII.

Na época de Dom Bosco, após a construção da estação ferroviária Términi pelo Papa Pio IX em 1863, o bairro começou a ser povoado, e as igrejas ao redor não conseguiam atender adequadamente aos fiéis. Isso levou ao desejo de construir um templo na área, e inicialmente foi planejado dedicá-lo a São José, nomeado padroeiro da Igreja Universal em 8 de dezembro de 1870. Após uma série de eventos, em 1871, o papa mudou o patronato da igreja desejada, dedicando-a ao Sagrado Coração de Jesus, e ela permaneceu em fase de planejamento até 1879. Enquanto isso, o culto ao Sagrado Coração continuou a se espalhar e, em 1875, em Paris, na colina mais alta da cidade, Montmartre (Monte dos Mártires), foi lançada a pedra fundamental da igreja do mesmo nome, Sacré Cœur [Sagrado Coração] que foi concluída em 1914 e consagrada em 1919.

Após a morte do Papa Pio IX, o novo Papa Leão XIII (como arcebispo de Perugia, ele havia consagrado sua diocese ao Sagrado Coração) decidiu retomar o projeto, e a pedra fundamental foi lançada em 16 de agosto de 1879. Os trabalhos foram interrompidos pouco tempo depois devido à falta de apoio financeiro. Um dos cardeais, Caetano Alimonda (futuro arcebispo de Turim), aconselhou o papa a confiar o empreendimento a Dom Bosco e, embora o pontífice tenha hesitado inicialmente, sabendo dos compromissos das missões salesianas dentro e fora da Itália, fez a proposta ao santo em abril de 1880. Dom Bosco não pensou duas vezes e respondeu: “O desejo do Papa é uma ordem para mim: aceito o compromisso que Vossa Santidade tem a bondade de me confiar”. Quando o Papa o advertiu de que não poderia apoiá-lo financeiramente, o Santo pediu apenas a bênção apostólica e os favores espirituais necessários para a tarefa que lhe foi confiada.

Colocação da pedra fundamental da Igreja do Sagrado Coração de Jesus em Roma

Ao retornar a Turim, ele pediu a aprovação do Capítulo para esse empreendimento. Dos sete votos, apenas um foi positivo: o dele… O Santo não desanimou e argumentou: “Todos os senhores me deram um ‘não’ redondo e isso é bom, porque agiram de acordo com a prudência exigida em casos sérios e de grande importância como esse. Mas se, em vez de um ‘não’, os senhores me derem um ‘sim’, eu lhes asseguro que o Sagrado Coração de Jesus enviará os meios para construir sua igreja, pagar nossas dívidas e nos dar uma boa gorjeta” (MB XIV, 580). Depois desse discurso, a votação foi repetida e os resultados foram todos positivos. O principal benefício foi o Internato do Sagrado Coração, que foi construído ao lado da igreja para meninos pobres e abandonados. Esse segundo projeto do internato foi incluído em uma Convenção feita em 11 de dezembro de 1880, que garantia o uso perpétuo da igreja à Congregação Salesiana.
A aceitação lhe causou sérias preocupações e lhe custou a saúde, mas Dom Bosco, que ensinou a seus filhos o trabalho e a temperança e disse que seria um dia de triunfo quando se dissesse que um salesiano havia morrido no campo de batalha desgastado pela fadiga, precedeu-os com o exemplo.

A construção do Templo do Sagrado Coração no Castro Pretório, em Roma, foi feita não apenas por obediência ao Papa, mas também por devoção.
Vejamos um de seus discursos sobre essa devoção, feito numa “boa noite” a seus alunos e coirmãos apenas um mês após sua nomeação, em 3 de junho de 1880, véspera da Festa do Sagrado Coração.
“Amanhã, meus queridos filhos, a Igreja celebra a festa do Sagrado Coração de Jesus. É preciso que também nós o honremos com grande empenho. É bem verdade que a solenidade externa a celebraremos no domingo; mas amanhã começamos a fazer festa em nossos corações, a rezar de maneira especial, a fazer comunhões fervorosas. Domingo, então, haverá música e outras cerimônias de culto externo, que tornam as festas cristãs tão belas e majestosas.
Alguns de vocês vão querer saber o que é esta festa e por que se honra especialmente o Sagrado Coração de Jesus. Eu lhes direi que esta festa nada mais é do que honrar com uma memória especial o amor que Jesus trouxe aos homens. Oh, o grandíssimo amor, infinito, que Jesus nos trouxe na sua encarnação e nascimento, na sua vida e pregação, e particularmente na sua paixão e morte! E dado que a sede do amor é o coração, desta forma é venerado o Sagrado Coração, como objeto que servia de fornalha para esse amor ilimitado. Este culto ao Sacratíssimo Coração de Jesus, isto é, ao amor que Jesus nos demonstrou, foi de todos os tempos e sempre; mas nem sempre houve uma festa especificamente estabelecida para venerá-lo. Como Jesus apareceu à Beata Margarida Alacoque e manifestou-lhe os grandes bens que virão aos homens que honram com um culto especial o seu amorosíssimo coração, e como foi estabelecida a festa, vocês vão ouvi-lo na pregação de domingo à tarde.
Agora vamos ter coragem e cada qual faça o melhor para corresponder a tanto amor que Jesus nos trouxe. (MBpt, p. 197-198).”
(MB XI, 249)

Sete anos depois, em 1887, a igreja foi concluída para o culto. Em 14 de maio daquele ano, Dom Bosco participou com emoção da consagração do templo, solenemente presidida pelo Cardeal Vigário, Lúcido Maria Parocchi. Dois dias depois, em 16 de maio, celebrou a única Santa Missa nessa igreja, no altar de Maria Auxiliadora, interrompido mais de quinze vezes por lágrimas. Eram lágrimas de gratidão pela luz divina que havia recebido: havia entendido as palavras do seu sonho de nove anos: “No devido tempo você entenderá tudo!”. Uma tarefa concluída em meio a muitos mal-entendidos, dificuldades e sofrimentos, mas coroando uma vida dedicada a Deus e aos jovens, recompensada pela própria Divindade.

Recentemente, foi feito um vídeo sobre a Basílica do Sagrado Coração. Propomos-lhes o vídeo a seguir.